Onde a arte encontra a moda: reflexões de Nova York
- Nayara Ribeiro

- 3 de mai.
- 5 min de leitura
Muito além do tapete vermelho, a conexão entre o Met Gala e o Museum at FIT prova que os limites entre o vestir e o criar são mais permeáveis do que imaginamos.

Os olhares do Met Gala
A noite mais fashion do ano está chegando! Com muito glamour, peças estruturadas e croquis de tirar o fôlego, o Met Gala 2026 acontece nesta segunda-feira, 04 de maio, e promete hipnotizar os amantes da moda.
Criado em 1948, tornou-se o fenômeno atual após Anna Wintour assumir o comando da produção. E nahreal? O evento vai muito além dos trajes de gala: é uma ação beneficente em prol do Costume Institute (Instituto de Moda), departamento dedicado à preservação, estudo e exibição de acessórios históricos de moda. Com o tema "Costume Art", o Met Gala 2026 destaca a arte do vestuário, elegendo o dress code "Fashion is Art" (Moda é Arte) para o tapete vermelho. O conceito propõe investigar a relação entre moda, arte e o corpo humano, analisando a roupa como uma forma de escultura e expressão artística.
Temática que nos remete à recente exibição Fashion x Art, que ocupou o The Museum at FIT (MFIT) entre fevereiro e abril. Nossa colaboradora, Andressa Amorine, esteve em Nova York e viveu uma verdadeira imersão no acervo da exposição. Confira as reflexões que ela trouxe diretamente da metrópole:
Os limites entre arte e moda
Quais são os limites entre arte e moda? Não no sentido de onde uma termina e a outra começa, mas em relação a como ambas funcionam como linguagens culturais. Foi essa a reflexão que tive ao me deparar com a exposição “Art x Fashion”, do Museum at FIT, em Nova York.

Tive a oportunidade de conversar com a curadora da exposição, Dra. Elizabeth Way, e logo percebi que a pergunta “a moda é arte?” talvez não seja a mais relevante ou a mais interessante, mas sim entender como esses dois campos atuam como sistemas de comunicação capazes de expressar valores, tensões sociais e transformações históricas.
Essa perspectiva molda profundamente a exposição Art x Fashion. Ao entrar na galeria, não encontrei uma resposta definitiva, mas sim um convite ao questionamento. A exposição se constrói como uma investigação visual que atravessa diferentes períodos históricos, reunindo cerca de 140 objetos entre vestuário e acessórios têxteis. Em vez de organizar essas peças de forma hierárquica, a curadoria propõe um diálogo contínuo, onde moda e arte coexistem como expressões paralelas e igualmente complexas.
Os diamantes da temporada
Entre as peças que mais me chamaram atenção na exposição, destaco o vestido Mondrian, de Yves Saint Laurent, criado em 1965, que sintetiza de forma emblemática o diálogo entre arte e moda. Confeccionado em lã jersey nas cores branco, preto e vermelho, o vestido traduz diretamente as composições geométricas de Piet Mondrian para o corpo, transformando a pintura em estrutura e movimento. Ao observá-lo de perto, fica evidente como a peça vai além da referência estética, funcionando como uma verdadeira reinterpretação tridimensional da arte moderna.

Já o vestido “Airmail”, de Hussein Chalayan, de 1999, apresenta uma abordagem completamente diferente, mas igualmente provocativa. Feito em Tyvek® — um material leve e semelhante ao papel —, o vestido foi concebido para ser dobrado e enviado pelo correio, desafiando noções tradicionais de vestuário, funcionalidade e circulação. Nesse caso, a moda se aproxima da arte conceitual não apenas pelo objeto em si, mas pela ideia que carrega, reforçando a proposta da exposição de pensar a roupa como experiência, conceito e meio de expressão cultural.
As expressões artísticas
Os designers não apenas se inspiram em movimentos artísticos, mas reinterpretam seus conceitos, transformando elementos bidimensionais em formas tridimensionais que ganham vida no corpo, fazendo com que a roupa deixe de ser apenas objeto e se torne experiência. Ao mesmo tempo, a exposição evidencia que artistas também se apropriam da moda como meio de expressão, seja na construção de identidades visuais ou na incorporação de vestimentas em suas obras, reforçando a ideia de que as fronteiras entre arte e moda são muito mais permeáveis do que rígidas.

Conseguimos observar diferentes momentos históricos, do Rococó à Pop Art, para demonstrar a continuidade dessa relação ao longo do tempo, criando conexões inesperadas que me fizeram perceber padrões, rupturas e reinterpretações. Nesse contexto, colaborações contemporâneas, como as de Jeff Koons e Takashi Murakami com a Louis Vuitton, ilustram como essa troca ganha novas dimensões, ampliando o alcance da arte para além dos espaços institucionais. Ainda assim, a exposição também nos leva a refletir sobre as implicações dessa aproximação, já que, ao mesmo tempo em que democratiza o acesso à arte, também a transforma em objeto de consumo, levantando questões sobre valor, autoria e circulação cultural.
Moda, Arte e Novos Sonhos
A curadora da exposição, Dra. Elizabeth Way, enfatiza que a mostra Art x Fashion surge a partir do próprio acervo do museu, que já reúne peças capazes de ilustrar, de forma concreta, essa relação histórica e contínua entre arte e moda, evidenciando que o projeto nasce tanto de uma ideia conceitual quanto de um diálogo direto com objetos existentes.

Sobre um projeto que Elizabeth Way ainda sonha em realizar, ela compartilha: desenvolver uma exposição dedicada aos dressmakers do século XIX, com foco na interseção entre moda e a história de mulheres negras nos Estados Unidos. Uma exposição que exigiria amplo trabalho de pesquisa e conservação, já que muitos desses materiais estão dispersos e pouco documentados, mas que abre caminho para novas formas de narrar a história da moda a partir de perspectivas frequentemente negligenciadas.
Por fim, Elizabeth nos deixa um conselho importante, que levarei para sempre comigo: “A formação acadêmica é essencial não apenas para construir uma base sólida de conhecimento, mas também para desenvolver pensamento crítico e criar conexões fundamentais dentro do campo da curadoria de moda.”

Moda é Arte?
Além da exposição e entrevista com a Dra. Elizabeth Way, tive a oportunidade de participar do 35º Symposium do Museum at FIT, que ampliou e aprofundou ainda mais as discussões que vivenciei.
O encontro reuniu diferentes vozes do campo acadêmico e criativo, incluindo designers e artistas, funcionando como uma extensão crítica da exposição ao explorar as múltiplas formas de interseção entre arte e moda.
Dentre os participantes, destacou-se Christian Francis Roth, criador do icônico crayon dress e uma grande referência no mundo da moda, cuja trajetória exemplifica de forma visionária a fusão entre arte e moda ao brincar com cores, formas e narrativas visuais de maneira inovadora. Ao longo das palestras, ficou evidente que essa relação está em constante transformação, acompanhando mudanças sociais, tecnológicas e culturais.
Mais do que oferecer respostas definitivas, tanto o simpósio quanto a exposição reforçaram a importância de continuar fazendo perguntas, especialmente em um mundo cada vez mais orientado pela imagem, onde reduzir a moda ao consumo se mostra limitado e insuficiente.
E nahreal? A jornada pela exposição Art x Fashion, do Museum at FIT, em Nova York, trouxe novas perspectivas: passei a enxergar ainda mais a moda como linguagem, narrativa, construção de identidade e uma potente ferramenta de expressão cultural.

* This article reflects on the central theme of Art x Fashion at the Museum at FIT, exploring how fashion and art are deeply intertwined as cultural and expressive forces. Through the exhibition and the 35th Symposium, as well as a brief interview with Dr. Elizabeth Way, it becomes clear that the question is not whether fashion is art, but how both fields continuously shape and inform one another. From historical references to contemporary collaborations, the exhibition highlights fashion as a powerful medium of storytelling, identity, and social commentary, while also pointing toward future narratives, including the untold histories that still remain to be explored.


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