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O olhar que transforma a matéria: Vik Muniz apresenta obras inéditas na maior mostra de sua carreira

De 20 de maio a 7 de setembro, o CCBB-RJ abre as portas para “A Olho Nu”: a maior retrospectiva já realizada sobre a genialidade provocativa, material e poética de Vik Muniz.



O que seria a arte senão uma maneira de transformar em imagem, forma ou linguagem o jeito como retratamos o mundo? E se a arte pode ser entendida como uma ilustração do que vemos e percebemos da realidade, quem é, afinal, o artista?


*Medusa Marinara, 1997 — Impressão jato de tinta em papel archival — 76 cm (diâmetro)



Vik Muniz não é apenas um dos artistas brasileiros mais reconhecidos e renomados, tanto nacional quanto internacionalmente, mas também um dos artistas contemporâneos mais relevantes da atualidade.


Vik traz nuances em seus trabalhos que vão além da simples percepção da imagem — que por si só já seria cheia de nuances. Sua forma de jogar e brincar com figuras, assim como a maneira como as percebemos, é extremamente intrigante.



*Duas vezes Mona Lisa (pasta de amendoim e geléia), 1999 — Série A partir de Warhol — Impressão jato de tinta em papel archival — 119,4 x 149,9 cm*


A Estética do Impacto no CCBB

Mas, muito além desse jogo de gravuras, com sua arte e em sua forma de “fazer arte”, Muniz traz em seus trabalhos grandes impactos sociais e econômicos, que muitas vezes acabam se tornando, ainda que indiretamente, políticos. E é com todo esse enredo e esses questionamentos que o CCBB do Rio de Janeiro apresenta a maior retrospectiva já realizada sobre a obra de Vik Muniz: a exposição “A Olho Nu”.


A exposição inicia no dia 20 de maio e vai até 7 de setembro de 2026, trazendo fotografias, esculturas e instalações monumentais. São mais de 220 obras produzidas ao longo de quase quatro décadas, atravessando diferentes momentos de sua trajetória e reafirmando uma das questões centrais de sua produção: afinal, o que é uma imagem?


*Atlas (Carlão), 2008 — Série Imagens de lixo — Impressão jato de tinta em papel archival — 129,3 x 101,6 cm*


Nascido em São Paulo em 1961, Vicente José de Oliveira Muniz, artisticamente conhecido como Vik Munizconstruiu uma trajetória internacional marcada justamente pela investigação dos limites da representação. Hoje, presente em instituições como o Museu Guggenheim, em Nova York, a Tate Modern, em Londres e o o Centre Pompidou, em Paris, entre outras, oartista mantém em sua produção referências constantes à cultura popular, ao cotidiano e à capacidade da imagem de alterar nossa percepção da realidade.


Entre a Ilusão e a Realidade

Ao longo da carreira, o artista ficou conhecido por utilizar elementos improváveis como açúcar, chocolate, sucata, poeira, lixo e até cinzas para criar retratos que só se revelam completamente à distância. De perto, a obra se fragmenta em matéria; de longe, transforma-se em retrato, paisagem ou referência à história da arte. Essa tensão entre reconhecimento e estranhamento atravessa toda a exposição.


Um dos destaques da montagem carioca é “Tropeognathusmesembrinus”, de 2026, escultura suspensa na rotunda central do CCBB. Produzida com polímero infundido com cinzas do Museu Nacional, destruído por um incêndio em 2018, a obra integra a série “Museu de Cinzas”, em que Vik Muniz reconstrói figuras e objetos a partir dos vestígios materiais da tragédia. Já na entrada da exposição, a monumental “Ferrari Berlinetta”, inspirada em um carrinho de brinquedo da infância do artista, amplia a discussão sobre memória, escala e afeto, presente em diferentes núcleos da mostra.


Múltiplas Versões de um Criador

Eu tive a honra de acompanhar o tour guiado por Vik Muniz e Daniel Rangel na noite da última terça-feira (19), onde o artista brincou ao dizer que possui “o melhor trabalho do mundo”, já que pode “se contratar e se despedir diariamente”.

Seguindo em tom bem-humorado, Vik fala como o seu trabalho o permite ser várias versões dele mesmo, relacionando essa ideia às suas 47 séries de trabalhos, apontando que talvez existam “47 versões diferentes” de si mesmo. A fala ainda faz referência à variedade de materiais e universos presentes em suas obras, que o levam constantemente a experiências completamente distintas, como exemplo, nos trabalhos realizados com itens de descarte, onde conviveu com os catadores de Jardim Gramacho no Rio de Janeiro, enquanto em outras séries esteve em contato com comerciantes de diamantes da Rua 47, em Nova York.


Flying Dutchman, 1991-2026                         Série Relicário - Técnica mista - 21 x 11 x 30 cm (cada).            


Vik destaca: “Cada projeto exige uma nova forma de pensar e atuar”.

O documentário Lixo Extraordinário também foi mencionado durante a visita. O artista incentivou o público a assistir à obra, destacando que, embora trate de temas como desigualdade social e sustentabilidade, o filme é, acima de tudo, sobre arte e sobre a capacidade de transformação presente no processo criativo.


Quando discursava sobre a série “Verso” (onde recria, de forma tridimensional e extremamente detalhada, o lado posterior de pinturas históricas e obras icônicas pertencentes a museus ao redor do mundo), um momento inesperado e emocionante: a chegada de sua mãe, Maria Celeste. Muito simpática e acolhedora, e abraçou Vik e o parabenizou pela exposição diante dos convidados presentes, nos fazendo refletir sobre apoio familiar e o início da trajetória de cada artista.


O Ofício Além do Glamour

“Levou mais de 20 anos para fazer ‘sucesso da noite para o dia’”, frase que já ouvi Vik falar em outros momentos e foi assim que iniciei o meu bate-papo com ele, que a partir deste questionamento, refletiu sobre a visão equivocada do que significa fazer arte e ser artista para o público. Segundo o artista, as pessoas costumam enxergar apenas o sucesso e o reconhecimento, sem perceber os anos de trabalho silencioso que existem por trás de uma trajetória artística.


“Nunca encarei a arte como algo ligado a uma posição espiritual ou intelectual superior, mas como trabalho cotidiano, insistente e construído ao longo do tempo”, enfatiza.

Vik Muniz também destaca a importância de seus pais em sua formação, especialmente pela liberdade que lhe deram desde cedo para imaginar a possibilidade de seguir esse caminho — algo que, segundo ele, muitas pessoas sequer conseguem conceber para si mesmas.

Vik Muniz e Daniel Rangel em tour guiado para convidados e imprensa - Mostra “A Olho Nu” CCBB - RJ
Vik Muniz e Daniel Rangel em tour guiado para convidados e imprensa - Mostra “A Olho Nu” CCBB - RJ

Uma Retrospectiva que Olha para o Futuro

O artista finaliza exaltando a importância da exposição no CCBB-RJ como uma oportunidade de reencontrar obras de diferentes momentos de sua carreira e perceber os caminhos inesperados que alguns trabalhos o levaram a percorrer.


Já para o curador, Daniel Rangel, que acompanha a trajetória de Vik Muniz há mais de duas décadas, a exposição não é apenas uma retrospectiva, mas sim uma prospectiva; afinal, Vik está sempre criando. Sendo uma mostra pensada para provocar diferentes leituras no público através de aproximações inesperadas entre as obras.


“A intenção da curadoria foi permitir que os trabalhos criassem novas camadas de significado quando vistos em conjunto, fazendo com que o visitante perceba conexões que talvez não surgissem se as obras estivessem organizadas apenas por série ou cronologia”, destaca.

A série “Dinheiro Vivo”, por exemplo, foi colocada dentro do cofre do museu, fomentando esse diálogo entre as obras e fazendo o espectador pensar além de cada criação, provocando diferentes leituras no público justamente através de aproximações inesperadas.


Entre esculturas, fotografias e instalações produzidas em diferentes períodos, “Vik Muniz: A Olho Nu” não apenas revisita a trajetória de um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente, mas também propõe uma reflexão sobre memória, percepção e construção da imagem em um momento marcado pelo excesso visual e pela instabilidade entre realidade e representação.


English Short Version

When I was at university studying Political Science, I had to develop a research paper on waste management. As a Brazilian born and raised, I chose to focus my work on waste management in Brazil. It was during this research that I came across the acclaimed documentary *Waste Land* by Vik Muniz, and I became instantly fascinated with his work. Since then, I have been a devoted admirer, closely following his career and artistic production. When, recently, I learned that the largest retrospective of his work was about to open at the CCBB in Rio de Janeiro, I did not waste a minute in securing an interview with him and the exhibition curator, Daniel Rangel. This article explores his current exhibition at the CCBB Rio de Janeiro, along with insights from both interviews.

Vik Muniz is a Brazilian contemporary artist known for transforming everyday materials such as trash, sugar, and chocolate into intricate visual artworks. His work often plays with perception, challenging the boundary between image and reality. Internationally recognized, he has exhibited in major institutions such as the Guggenheim Museum and the Tate Modern.







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