O Retorno das Peles: luxo vintage ou dilema ético?
- Nayara Ribeiro

- 29 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de fev.

A temporada de Inverno 2026 da Semana de Moda de Nova York chegou ao fim. Entre estreias e retorno de designers consagrados, foram mais de 60 desfiles, realizados entre os dias 11 e 16 de fevereiro, apresentando um período de redefinição para o vestuário nos Estados Unidos.
Dentre os destaques, o animal print e o maximalismo não passaram despercebidas aos nossos olhos. Tendo Ralph Lauren e Diotima apresentando as tendências com maestria.


Os desfiles acontecem após o recente anúncio da Council of Fashion Designers of America (CFDA), órgão responsável pelo calendário nova-iorquino, proibindo o uso de pele de animais em coleções que fazem parte do evento.
No entanto, apesar da proibição nas passarelas, o desejo por peças de pele é crescente. Seja fake ou vintage, nas mídias sociais ou através de personalidades como Hailey Bieber, Taylor Swift e Rihanna, é notável a sua ascensão.
Mas nahreal: qual é a razão de tanto sucesso? Quem explica esse fenômeno é o nosso colunista Ricky Monteiro, que conta tudo sobre o ‘comeback’ das peles em 2026.
Por que o desejo por peças de pele animal cresce enquanto a produção cai?
A produção de novas peles vem caindo, pressionada por ativismo animal, mudanças nas regulamentações e no posicionamento das marcas. Ainda assim, o interesse por esse tipo de peça não desapareceu; ele só mudou de lugar.
Recém-finalizada a Paris Fashion Week, onde as peles ainda não foram proibidas, fica a dúvida: além da pele em si, o que ela representa na cultura de moda?

O maximalismo cria o cenário perfeito para o retorno da pele
É preciso destacar que a moda não se move em linha reta. E, depois de anos de minimalismo e neutralidade, o maximalismo vem ganhando espaço com as peças em excesso e mais dramáticas.
A pele preenche esses requisitos. Poucos materiais causam impacto tão rápido: o volume, a textura e a presença comunicam poder, teatralidade e estilo.
O papel decisivo do mercado de segunda mão
Mas o retorno desse material não vem dos meios tradicionais de produção. O crescimento do mercado “secondhand” tornou peles vintage mais acessíveis e mais visíveis, aumentando a demanda em boutiques especializadas e plataformas de revenda. Peças que estavam restritas a heranças familiares passaram a circular com mais facilidade, vendidas como itens raros e colecionáveis.

Pensando nisso, o vintage ocupa um espaço que as marcas deixaram. Ele atende a um desejo que não é saciado nas novas coleções.
A nostalgia move o desejo
A frase dos nossos pais já é conhecida: “no meu tempo era muito melhor”. Com o excesso de informações, instabilidade econômica e crises políticas e ambientais, estamos olhando e enxergando no passado uma segurança, um “tempo mais simples”. E as roupas carregam a história desses momentos.

As peles são um grande símbolo desse passado, sendo destaque no cinema clássico e vestindo celebridades em uma época onde o status e o luxo eram exibidos com excesso.
Quando o desejo encontra a “ética”
Além disso, o uso de segunda mão traz uma sensação de alívio para a consciência. Muitos consumidores defendem que usar pele vintage é uma escolha menos antiética do que adquirir uma peça nova. A lógica é simples: se a peça já existe, seu uso não incentiva diretamente a indústria da caça de novos animais para esse fim.
Essa ideia faz com que o vintage seja visto como uma forma de conciliar estética e consciência, mesmo que isso ainda abra espaço para discussões. Um levantamento citado pela Vogue no artigo “What Would It Take to Rid Fashion of Animal Fur?” aponta que as buscas por “vintage fur coats” cresceram cerca de 688% entre 2023 e 2025.
O número deixa claro: enquanto a indústria recusa a produção de novas peles animais, o interesse por peças antigas atinge níveis recordes, impulsionado por tendências como mob wife, maximalismo e sensualidade.

As proibições não eliminam o desejo, elas o movem: seja em arquivos pessoais, brechós, plataformas de revenda ou redes sociais. No fim das contas, a pele não desaparece, ela só muda de lugar. E isso deixa claro que, na moda, o desejo é algo muito mais complexo do que as proibições.

Por: Ricky Monteiro, publicitário entusiasta da moda, apaixonado por cinema de terror e música.

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